23 janeiro 2011

No país dos decíbeis

Há muito tempo li este texto e acho um dos melhores que já li,deixe aqui em comentários sua opinião.Os grifos são meus pra você refletir.

No país dos decibéis

"Será que o baixo crescimento da economia não seria o resultado do excesso de barulho?"
Ao fazer as malas para o Brasil, após quinze anos na Suíça e nos Estados Unidos, assaltava-me o temor de um choque cultural. Como a Batalha de Itararé, o choque não ocorreu, foi ajustamento instantâneo. Mas houve uma exceção: o choque dos decibéis.
Eu vinha de uma Suíça onde em muitos edifícios é proibido tomar banho e puxar a descarga após as 10 horas da noite. Os ônibus são silenciosos, e aviões barulhentos não pousam lá. Os cachorros não latem, e as crianças não berram. É proibido cortar grama aos domingos, por causa do barulho das máquinas. Lá eclodiu um célebre processo judicial contra os cincerros das vaquinhas que incomodavam um vizinho. Fiquei mal-acostumado, adquiri hábitos alienados.
Aqui estou, depositado no país dos decibéis. Ônibus e caminhões urram dentro da lei dos 88 decibéis máximos, quando na Europa a norma é 74 (sendo a escala de decibéis logarítmica, o volume de som é muitas vezes maior!). Muitos urram fora da lei. Uivam motos sem silenciosos. Os pneus cantam nas curvas. A cachorrada da vizinhança tem cordas vocais de aço-molibdênio. As igrejas e os cultos confundem decibéis com fé.
A obra-prima da agressão sonora são uns automóveis cujos porta-malas se abrem revelando uma bateria de alto-falantes, terrível usina de decibéis. Felizmente, algumas cidades turísticas estão comprando decibelímetros, para não perder clientes antiquados como eu.
As salas de aula não têm tratamento acústico. Parece até que foram planejadas para maximizar a refletância ambiente (as piores são as dos Cieps). A norma da ABNT para salas de aula estipula um máximo de 40 a 50 decibéis, mas o nível de ruído atinge 75 em casos comprovados. O ruído impede a atenção ou mesmo impede de ouvir o professor. Em quantos pontos faz cair o rendimento dos alunos brasileiros?
Nos restaurantes, a barulheira não está no cardápio, mas é parte do serviço. É como se o objetivo de manter uma conversação relaxada e inteligente fosse coisa subversiva, a ser impedida pelas múltiplas ressonâncias – amplificadas pelas superfícies lisas e paralelas. Um proprietário experiente disse que restaurante silencioso espanta clientes.
Parece que o choque de gerações se concentra nos decibéis. Na música, são o sonho de consumo, indo muito além dos níveis máximos das normas de saúde ocupacional. E, diante dos que reclamam, a polícia candidamente confessa não saber bem o que fazer nem qual unidade cuida do assunto. Ou, então, vai inspecionar no dia seguinte ao da festa.
O que menos me incomoda é a música das boates, apesar de ensurdecedora. É que, após uma experiência traumatizante, aprendi minha lição. Não entro nelas em hipótese nenhuma. Se lá dentro estivesse, de bom grado pagaria para sair.
Segundo os padrões da Organização Mundial da Saúde (OMS), 65 decibéis marcam o limiar do que faz mal à saúde – dependendo do tempo de exposição. Verificou-se que ruído excessivo aumenta a adrenalina, provoca alta de pressão, stress, insônia e (em Berlim) aumenta em 20% a probabilidade de infarto. Nos Estados Unidos, 10 milhões de pessoas perderam a audição (ou parte dela) por excesso de ruído – e parece que os números aumentam. Lá, o seguro-saúde é mais caro para quem trabalha em lugares barulhentos. Entre nós, quantos milhões convivem com muito mais decibéis do que a lei permite em fábricas? Uma banda de rock emite tantos malditos decibéis quanto uma turbina de avião (130 decibéis).
O ruído nas ruas, nas escolas e nos hospitais costuma estar acima do máximo da OMS. Será possível aprender em salas de aula tão ruidosas? Por que ignorar os males que faz à saúde? Será que o baixo crescimento da economia não seria o resultado do excesso de barulho? A sociedade não estaria sendo anestesiada ou hipnotizada por uma forma sinistra de conspiração sonora?
Manifesto a minha revolta auditiva contra um povo que confunde alegria com barulho. Parece que música alta libera hormônios, dando um "barato". Que seja. Mas o prazer de uns poucos não pode ser à custa do incômodo de outros. O som que me incomoda invadiu ilegalmente a minha privacidade. Temos o direito ao silêncio.
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Claudio de Moura Castro (economista)
REVISTA VEJA
Edição 1941 . 1° de fevereiro de 2006



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